Lisboa Minha Cidade
Mirador de Santa Luzia
quinta-feira, março 02, 2017
"¡Lea esa vaina, carajo, para que aprenda!"
quarta-feira, junho 25, 2014
La escritora Ana María Matute muere a los 88 años
domingo, outubro 08, 2006
Lisboa
Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico de um miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até a brisa que corre me sabe a sal. Há ondas de mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa-dos-ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para os oceanos. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um reio menino montado num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreno batido pelo sol. Em frente é o rio que orre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.
PIRES, JOSÉ CARDOSO, in LISBOA - LIVRO DE BORDO, edições, Dom Quiote, 1997
sexta-feira, outubro 06, 2006
UMA PEDRA SOBRE O RIO
Começou, aos poucos, a deixar de ouvir o que se discutia na sala de reuniões. Para quê tentar convencer quem não queria ser convencido? Por detrás da cabeça do colega que estava à sua frente, conseguia ver o céu, as copas das árvores a baloiçar, e foi-se deixando afastar daquela sala, com alguma sensação de libertação, olhando lá para fora.Tantas vezes lhe ocorria aquele pensamento de que tudo lá fora continuava, indiferente ao que se passava, ao que se decidia. Sentia-se atraída por essa ideia de deixar as coisas correrem, indiferente.
Seguia, de tempos a tempos, as conclusões bombásticas dos colegas, ia dizendo uns «claro» esquivos, escrevinhava gatafunhos que não tencionava vir a decifrar. Estava tão longe daquela sala. Sentia crescer aquela desilusão que a acompanhava ultimamente, sentia que tudo aquilo era um enorme desperdício de tempo, que nada valia a pena. Angustiava-se por se sentir assim, mas cada vez mais lhe acontecia perceber que tudo o que fazia tinha perdido o sentido.
Quando a reunião finalmente terminou, estava cansada e aborrecida. Resolveu sair logo do edifício, antes que alguém se lembrasse de lhe pedir alguma opinião, de comentar alguma decisão. Começou a andar pela rua fora, arrastando a pasta e a desilusão, as pernas pesadas e os olhos no fundo das órbitas.
Santos, Margarida Fonseca in "Uma Pedra Sobre o Rio", ediçõesDifel, S.A.
quinta-feira, outubro 05, 2006
SINFONIA EM BRANCO

Ainda havia algum tempo antes que ela chegasse.
A tarde abafada de verão descolava-se da estrada sob forma de poeira e se espreguiçava no ar. Tudo estava quieto, ou quase quieto, e mole, inchado de sono. Um homem de olhos muito abertos (e transparentes de tão claros, coisa que não era comum) fingia vigiar a estrada com seus pensamentos. Na verdade, os olhos mapeavam outros lugres, vagavam dentro dele, e catavam cacos de memória como uma criança que colhe conchinhas na areia da praia. Às vezes o presente se intrometia, se interpunha, e ele pensava vou usar terra em meu próprio trabalho. Mas então o mundo marrom e ressecado e empoeirado contraía-se novamente para ver passar um branco virginal, uma moça vestida de branco que evocava um quadro de Whisler.
Tomás lembrava-se dela. O amor. Onde estaria?
O amor era como a marca pálida deixada por um quadro removido após anos de vida sobre uma mesma parede. O amor produzira um vago intervalo em seu espírito, na transparência dos seus olhos, na pintura envelhecida da sua existência. Um dia, o amor gritara dentro dele, inflamara suas vísceras. Não mais, Mesmo a memória era incerta, fragmentada, pedaços do esqueleto de um monstro pré-histórico enterrados e conservados pelo acaso, impossível recompor um todo íntegro. Trinta anos depois. Duzentos milhões de anos depois.

